Opiniões
Ouvir personagens e escrever a respeito deles soaria um acontecimento sobrenatural se não fosse absolutamente material numa mente escritora. Esse privilégio literário é alcançado de forma natural por Tatiana Pastorello em Mulheres fortes não ganham flores.
Nos vinte e dois contos desta obra, figuras simples e emblemáticas eternizam o cotidiano, evidenciam o especial na rotina, ampliam a percepção de felicidade.
Os florais de Bach partiram como inspiração para esse livro de estreia. Eles expressam, em certo aspecto, arquétipos. E pela intrínseca relação com eles ao longo dos últimos anos como terapeuta, a autora percebeu seu potencial inspirativo. Uma diversidade singela e tocante se apresenta nas páginas: o balde de estimação da matriarca, símbolo do passado de luta; a certeza da vontade de prazer no corpo sentida pela idosa; a fragmentação do casamento como uma surpresa à mãe jovem, sobrecarregada e esquecida; o amor romântico entre duas mulheres tão diferentes; e várias outras vidas nos mostrando suas decisões de permanência no mundo.
A mulher dita forte, estereótipo daquela que muito aguenta sem opção, e jamais é cuidada, vem numa figura presenteada com um buquê. O afago torna-se uma contundente reflexão a respeito da manutenção solo da família. E do apagamento da individualidade. Ganhamos histórias e força!
Dani Costa Russo (Editora)
Tatiana Pastorello trabalha com florais, essas gotas de nomes estranhos que minha existência antibiótica de farmácia não entende.
Cada conto tem correspondência com os tais fluidos, mas não precisamos saber das misturas ou apelidos dos frascos. A velha calçando mal as botas de salto quadrado, a mulher sofrendo no banheiro e olhando o tapete sujo à espera, como ela, de algum batismo impossível, e até o balde enfeitando uma sala como ofertório, todas essas figuras são eu mesma, floral de drogaria que sou, avessa a ramalhetes. Todas elas são parte de mim, de nós, leitores dessas vidas todas, ainda que não pertençamos a elas.
Em Mulheres fortes não ganham flores Tatiana busca em nós o que perdemos dos outros, mas de alguma forma está aqui e nos espia no fundo do frasco do corpo. É isso, é essa capacidade de nos desdobrarmos em quem não somos, na mulher vendendo cocada na rua enquanto compramos nossos doces de supermercado, na que some no mundo quando estamos grudados em casa e noutras tantas aí dos contos — é esse estiramento da própria existência na pele avessa à nossa que estranhamente nos devolve ao que esquecemos de nós próprios.
Não é isso a escrita? Revelação do que há embaixo do concreto fracassado, como no conto onde a planta nasce de uma fissura num muro? A escrita de Tatiana é revelação de nossas rachaduras. Delas, a vida nasce como força sem glória e sem buquê.
Marta Neves (Escritora)